segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Temple Grandin


Nome original: Temple Grandin  
Direção: Mick Jackson
Elenco: Claire Danes, Julia Ormond, David Strathairn
Gênero: Biografia/Drama
Ano: 2010


   Filmes biográficos são especiais por trazerem a seu conhecimento pessoas que você jamais conheceria de outra forma. "Temple Grandin" traz a história da personagem de mesmo nome, diagnosticada com autismo e que ficou conhecida nos EUA por projetar mecanismos de tratamento de gado menos agressivos.
   Com apoio da mãe e contrariando as expetativas dos especialistas, Temple entrou na escola e conseguir se graduar e fazer seu mestrado, tornando-se a autista mais importante dos Estados Unidos em termos acadêmicos. O filme mostra sua vida desde a infância, até época em que ela já estava ficando conhecido no sul dos EUA por causa de seus projetos que atualmente são usados na metade dos matadouros americanos.
    A atuação de Claire Danes consegue passar a ansiedade e o desconforto de uma pessoa que se sente invadida pelo social. Além disso, a edição do filme consegue passar a perspectiva da própria personagem, que pensa por imagens e, exatamente por isso, consegue tanto sucesso nas ciências. Vários efeitos são usados para demonstrar como o raciocínio de Temple funciona., com o bombardeamento de imagens a qual é submetida a todo tempo em seus pensamentos. Julian Ormond também faz um ótimo trabalho, interpretando a mãe de Temple que teve que lutar pelo espaço da filha em uma época onde pouco se falava de autismo. O filme em si funciona como uma boa aula de como é a subjetividade autista, principalmente pelas formas criadas pela personagem para lidar com tal estado, como a "máquina de abraços".
      Uma boa obra para se conhecer essa mulher que ainda está viva e inclusive foi eleita pela revista Times como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo.
      
     
Conceito: Bom

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Eu, Daniel Blake


Nome original: I, Daniel Blake
Direção: Ken Loach
Elenco: Dave Johns, Hayley Squires, Dylan McKiernan
Gênero: Drama
Ano: 2016


   
    Daniel Blake é um senhor que, após sofrer um infarto, começa um longo embate com os órgãos públicos pra conseguir receber auxílio financeiro do governo britânico enquanto está de licença médica. É o primeiro filme que vejo que trata do tema.
     A primeira cena do longa já é uma entrevista do Sr. Blake com uma funcionária do governo. Tendo já todos os documentos médicos que provam sua incapacidade de trabalhar, o personagem descobre nesse momento que está entrando numa maratona burocrática de invisibilização, desrespeito e humilhação.    
     Sem nenhuma trilha-sonora e com uma narrativa dura, com cenas como flashes de realidade nos quais a tela escurece antes de passar pro próximo, "Eu, Daniel Blake" é quase um documentário. O próprio nome do filme, uma autoafirmação do nome do personagem, demonstra seu objetivo principal: trazer à visibilidade um cidadão comum, completamente atropelado pela frieza do sistema burocrático de Estado Social que em seu princípio puro e esquecido tem como meta acolher os indivíduos, mas que na prática sucumbe à impessoalidade e à forma de tratamento do ser humano como uma máquina produtiva, um número. Cabe ressaltar aqui que é um cidadão pobre europeu, sendo esmagado pela máquina estatal, elementos bastante raros no cinema.     
     A incapacidade de escuta dos funcionários que lidam com Blake e com sua nova amiga Katie, mãe de 2 filhos e também dependente de auxílios, é cruel. O diagnóstico médico é ignorado durante todas as entrevistas e Blake continua sendo visto pelo governo como apto ao trabalho. A mecanização dos processos e a não possibilidade de abertura de exceções, tudo em nome de uma norma organizadora e eficiente, são devastadores para os cidadãos que se sentem como mendigando por um favor, e não por um direito. A dureza do embate com o governo só é amenizada pela ajuda e o carinho que Blake recebe dos conhecidos, sendo uma luz de resistência a tantas humilhações sutis e impessoais recebidas. O caráter pessimista do filme acaba sendo um pouco diminuído por essas formas de resistência afetiva.     
     Outra novidade é mostrar como defeitos que vemos tão perto, em nosso SUS e em todas nossas políticas públicas, são também presentes em países desenvolvidos. O forte vínculo entre burocracia, rigidez, racionalização de processos e frieza no tratamento faz com que as políticas de assistência esqueçam que estão lidando com seres humanos em situações de extrema fragilidade e que não podem ser resumidos a papéis e números. A burocracia, sistema de regras criadas por nós mesmos, chega a um nível que começa a nos mortificar, como se fossem procedimentos certeiros, únicos e inevitáveis e aos quais só nos resta a adaptação. Dessa forma, o usuário da outra ponta, no caso pessoas em situação de pobreza, acabam por se tornar peças não importantes nesse jogo. A singularidade do humano não deveria ser completamente ignorada quando tratamos do humano em seus momentos de maior fraqueza.     
     O filme de Ken Loach acaba sendo devastador pela carga política e afetiva que despeja na tela. Uma obra sobre a impotência frente a uma máquina política-governamental que insiste em não nos ver, que faz de seus funcionários seres surdos e meros reprodutores de normas cegas.
     
Conceito: Muito bom

domingo, 8 de janeiro de 2017

Capitão Fantástico


Nome original: Captain Fantastic
Direção: Matt Ross
Elenco: Viggo Mortensen, Frank Langella, George Mackay
Gênero:Drama
Ano: 2016




     "Capitão Fantástico" traz as história de Ben, que cria os 6 filhos reclusos em uma floresta, distante do mundo e de uma cultura que julga decadente. Quando sua esposa morre, precisam entrar em um embate com sua família para que seu último desejo, de ser cremada, seja obedecido.
     O filme é válido como disparador de várias discussões sobre nossa cultura. Criando os filhos da forma que julga mais coerente e saudável, Ben os ensina a caçar, a escalar, a estudar filosofia, ciência e os grandes clássicos da literatura. Como um experimento psicológico de educação infantil, as crianças são criadas em um minissociedade alternativa, na qual, por exemplo, ao invés de comemorarem o Natal, celebram o aniversário de Noam Chomsky, o filósofo ativista norte americano.
     No que se refere às críticas sociais, o filme lembra muito "Turista Espacial", também comentado aqui no blog. Os métodos de educação, a visão religiosa e política ensinados por Ben aos filhos fazem com que, em dado momento, eles mesmos se sintam "aberrações" quando tem contato com o mundo exterior, a clássica sociedade americana. Também outro aspecto interessante presente é a visão da morte em diferentes contextos. Sendo budista, a mãe das crianças desejava ser cremada, o que suscitou um embate ferrenho com a família cristã, que queria o típico sepultamento.
     A obra tem como ponto forte essa experiência de imaginar a educação como forma extrema de resistência à comportamentos e discursos compartilhados pela maioria: se não pode com seus inimigos, afaste-se deles. Entretanto, com a ida da família para cidade para honrar a memória da mãe, vamos vendo os conflitos envolvidos nesse projeto polêmico de vida reclusa, pois o fato é que sim, existe o mundo, quer gostemos de sua forma ou não.
     Guardei esse filme como um ensaio de uma possível forma de resistência micropolítica, levado ao grau extremo. Por fim, a pergunta que fica é: como resistir estando incluído no sistema que tanto criticamos? Como encontrar uma postura política que não seja se esconder em uma floresta num regime ultrarracional e nem ser meramente um cidadão urbano médio consumidor de discursos prontos?

Conceito: Bom

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Turista Espacial


Nome original: La Belle Verte (França)
Direção: Coline Serreau
Elenco: Catherine Samie, Claire Keim, Coline Serreau, Denis Podalydès, Didier Flamand 
Gênero: Ficção 
Ano: 1996



     Filme francês propõe uma experiência antropológica através da desconstrução da nossa sociedade pela visão estrangeira de extraterrestres. Contudo, de uma maneira bastante informal e interessante.
     Mila (interpretada por Coline Serreau, também a diretora), extraterrestre provinda de um planeta onde o ser humano vive em total harmonia e sustenta um estilo de vida bastante diferente do nosso, viaja à Terra com o intuito de encontrar a família de sua mãe, começando uma jornada pelo planeta que ninguém queria visitar devido à sua situaçào primitiva e tão inferior àquela que ela e seu povo estão acostumados.
     O filme consegue perfeitamente cumprir seu papel de motivar uma reflexão no espectador por colocá-lo em uma perspectiva de observador de si mesmo e de sua sociedade como um todo. Sob a ótica de Mila e seu povo, discussões sobre espiritualidade, alimentação, economia, natureza e vários outros aspectos de nossa humanidade são, por causa da distinção com aquele outro planeta, levantadas e acabam trazendo uma sensação de deslumbramento. Todos as viscitudes dos seres humanos, óbvios como a geração de poluição, o descaso com o meio-ambiente e o sistema econômico cruel, ou sutis (será?) como a alimentação, as frustradas relações interpessoais e individualidade egoísta, são expostos no filme. Um batom, por exemplo, é o causador de um diáologo intrigante sobre o padrão de beleza e nossas expectativas com o mesmo.

     É visível o ativismo e as influências de certas correntes de pensamento no longa e na montagem do planeta-modelo, tão à frente do nosso. Para um espírita, é fácil ver as semelhanças entre a relação da Terra com o planeta do filme e da Terra como os planos espirituais superiores, que os crentes da doutrina espírita acreditam. Jesus Cristo, em ambas as situações é mostrado como um ser enviado ao nosso planeta para nos fazer avançar na linha evolutiva mais rapidamente. O vegetarianismo também está presente, defendido com a repulsa e surpresa quando há a descoberta que aqui em nosso planeta ainda comemos carne.
     Vários outros elementos fazem do filme uma obra inesquecível, que parece ter sido fonte de inspiração para filmes como Avatar e até mesmo do humor presente na série O Guia do Mochileiro das Galáxias (se este não tivesse surgido anteriormente àquele, claro). Cenas engraçadas e criativas surgem aos montes, como o balé dos jogadores de futebol e os diálogos nervosos quando a personagem tenta entender nosso estranho mundo.
     Turista Espacial é um filme instigante, propiciador de uma experiência incrível de descontrução e viagem a nós mesmos. Deve ser visto.
     
Conceito: Excelente

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Amores Brutos



Nome original: Amores Perros (Espanha)
Direção: Alejandro González Iñárritu
Elenco: Gael García Bernal, Gustavo Sanchez Parra, Dagoberto Gama
Gênero: Drama
Ano: 2000 



      Filme de Alejandro Iñárritu é tão bom quanto Babel, e foi feito na mesma forma.
      Uma série de histórias conectadas sobre pessoas e o amor em meio à violência e dor, este último algo inevitável, pelo que parece. Um mendigo e seus cachorros, um jovem e a esposa de seu irmão bandido, um homem que larga a mulher e pra viver com a amante. Esses são os personagens que protagonizam as três partes do filme, cada qual com seus respectivos nomes como título. Gael García Bernal interpreta o jovem que começa a ganhar dinheiro com seu cachorro em rinhas para fugir com a cunhada.
      Diferentemente de Babel, não há um acontecimento específico da qual as histórias dos personagens partem. Eles são apresentados separadamente para depois entrarmos em suas vidas e vermos em quais pontos os outros aparecem ou interferem de modo sutil, como um encontro na rua, ou de modo intenso, como em uma batida de carro. Outra diferença entre as duas obras do diretor é o fato de que Amores Brutos não segue a ordem cronológica em vários momentos, trazendo uma ordenação mais complexa e muito mais interessante e dinâmica ao longametragem. Em compensação, as trilhas-sonoras dos dois filmes são bastante semelhantes e deve-se dizer que foi um bom aproveitamento.
      Fazer um filme múltiplo assim é vantajoso, pois as tramas chatas podem ser compensadas pelas interessantes. Entretanto, o roteiro não cai em momento algum, pretendo a atenção e emocionando, graças aos segredos, à violência e tensão que permeiam as histórias de amor que mais trazem sofrimento do que felicidade. “Porque também somos o que perdemos”, a frase presente na dedicatória final, resume a ideia de Iñarritu.
      Amores Brutos é um grande acerto do diretor espanhol, sendo uma homenagem ao amor e todos os problemas e conflitos que todos nós conhecemos muito bem.

Conceito: Excelente

O Segredo de Vera Drake


Nome original: Vera Drake
Direção: Mike Leigh
Elenco: Imelda Staunton, Phil Davis, Eddie Marsan
Gênero: Drama
Ano: 2004


    
Filme de Mike Leigh conta a história verídica de Vera Drake, brilhantemente interpretada por Imelda Stauton.
     Londres, 1950. Numa Inglaterra pós-guerra, Vera Drake concilia sua vida simples dedicada à família com sua rotina secreta de ajudar jovens a cometerem aborto, até que uma delas é levada ao hospital por complicações, trazendo o segredo de Drake à tona para a justiça e conhecidos.
     Desde o início do filme a construção da personagem principal visa enfocar a simplicidade de sua vida e sua popularidade entre a vizinhança graças à sua solidariedade e simpatia. Dessa maneira, logo de início já começamos a buscar argumentos para entender e justificar as atitudes de Vera que a levariam aos tribunais em breve. Em cada caso onde o aborto é provocado, vemos diferentes tipos de mães, que buscaram ajuda de Drake por diversos motivos: excesso de filhos, estupro, traição ou só jovens descuidadas e reincidentes no aborto forçado. Com toda essa pluralidade de razões, é fácil notar porque o tema é tão polêmico, inclusive bastante recorrente hoje em discussões políticas e éticas. É possível ver Vera Drake como uma assassina qualquer mesmo sendo suas intenções de ajudar, gratuitamente, as aflitas jovens, tão visíveis? O roteiro e a maneira que foi elaborado trazem mais situações que favorecem a personagem, contrapondo-se somente às passagens nas quais ela demonstra uma demasiada ingenuidade e serenidade, que pode ser tomada como frieza e falta de escrúpulo.
     Imelda Stauton se mostra perfeita no papel, desde o início quando sua vida está tranquila e feliz, até a polícia aparecer na sua porta. Nos dois momentos, talvez graças ao estilo do diretor Mike Leigh e retratar fielmente o real e os dramas familiares, nos sentimos imersos na família Drake e todos os acontecimentos que a rodeiam, acabando por nos tornarmos tão íntimos que sentimos pesar por Vera. Os diálogos cotidianos e simples, e a história em ordem cronológica sem grandes pulos no tempo nos dá a sensação de estarmos quase vendo a história acontecer dentro de nossa casa.
     Indicado a 3 Oscar, Vera Drake é um bom filme para ilustrar o tema do aborto e para ver porque Stauton ganhou diversos prêmios de Melhor Atuação.


Conceito: Muito Bom

Simplesmente Feliz


Nome original: Happy-go-lucky
Direção: Mike Leigh
Elenco: Sally Hawkins, Andrea Riseborough, Eddie Marsan
Gênero: Comédia
Ano: 2008


     Mike Leigh dirige esse filme leve e agradabilíssimo de assistir, no estilo Amelie Poulain.
     Poppy é uma mulher de 30 anos otimista e feliz, que trabalha como professora primária e tenta levar sorriso a todos a sua volta. O filme não possui uma trama definida, sendo mais o retrato da vida cotidiana da personagem vivendo em um típico e minúsculo apartamento inglês com sua amiga. A felicidade e bom humor de Poppy transparecem em todos os momentos e é contagiante, principalmente nas cenas das aulas de direção com o ranzinza instrutor interpretado de uma maneira magnífica por Eddie Marsan (também presente em Vera Drake), que junto com Sally Hawkins fazem as melhores cenas do longa.
      Simplesmente Feliz é difícil de encaixar-se em algum gênero, mas talvez a comédia seja mais adequada, graças às cenas e aos diálogos hilários devidos ao contínuo bom humor e leveza de Poppy, que se não fosse pela capacidade da atriz de interpretar tão belamente essa personagem, não seria tão recomendável. Um filme pra acalmar a mente.



Conceito: Muito Bom